sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Nunca respondeu

Algumas palavras para ti, Madalena...
Talvez que ainda estejas no meu horizonte. Um horizonte muito nebuloso que me faz hesitar.
Quinta-feira levei intencionalmente a Carmo a almoçar ao restaurante onde eu e a Madalena estivemos pela última vez. E vi-a. Estava com uma amiga. Vestia uma blusa branca, de renda.
«Como está, senhor doutor?»
«Bem, muito obrigado...»
Nunca pensei falar-lhe com tanta frieza.
Saímos quase de seguida. Não havia mesa disponível no restaurante. A paixão que senti pela Madalena arrefeceu a ponto de mostrar aos outros a face oculta da mulher que dizia só gostar do poeta.
Os pensamentos que me escurecem a mente talvez estejam a ser iluminados pela previsão da Verónica feita há cerca de três anos:
Alguém a quem acabaria por voltar as costas, não sem antes...
Amar ou odiar. Estamos no jogo. Continuo a pensar que estás escondida neste jogo, estrela. Perdi-te com a fuga da Esfinge e vou perder-te de novo. Empenhas-te em nova fuga. Preciso de chegar a ti. Quero talvez destruir-te...

Que é feito do tempo em que não havia tempo?
Pergunto ao vento por ti. Às nuvens. À chuva que cai. Às lágrimas que não choraste. Aos olhos que se fixaram nos meus quando o tempo parou. Pergunto ao vento que soprou forte e levou as nuvens para longe.
Para onde foi a última onda que nunca chegou?
Cansei-me de esperar sentado à lareira onde arde a última paixão, vejo as labaredas vermelhas e afogueantes, último alento, agonia inevitável de uma estrela em colapso. Em breve deixarei de as ver. É suposto pensar, entretanto, que as vejo no tempo sem tempo. No tempo que levou as nuvens. A chuva. As lágrimas. Os teus olhos tristes.

Inevitavelmente, é suposto pensar que nunca mais te verei, estrela. Ontem brilhavas no firmamento que controlava na distância de estender o braço ou de pensar em ti. Hoje não sei a quem se dirigem os sonhos utópicos que dizem seres minha. Se a ti. Se às outras que usaste. Morreste. E as outras passaram. Também já não voltam.
Não consegues contactar-me, mas sinto a tua presença.
Ou não te mostras apenas por vingança?
O amor de ontem transformou-se em ódio?
A ser verdade, esses teus sentimentos são baixos. Mas olha... o ódio não te purifica. Longe disso. Só pode tornar mais pesado o karma que não deixa que partas. Se ao menos pudesse ajudar-te.
Sabes?, é um absurdo! Não me tens porque não queres. Juro que naquele dia vi os teus olhos. ERAS TU!
Mas para quê a negaça daquele dia em que fugimos para longe e nos olhámos uma eternidade, olhos nos olhos, como dois namorados muito apaixonados?
«Qual é o meu papel?» Perguntou a Marta.
«Serves de corrente...» Respondemos ao mesmo tempo.
Escuta, poderíamos tentar unir as nossas forças. Não sei o que é preciso fazer. Foi fácil quando o tempo parou. Não te sentiste bem? Julgo que sim. No tempo sem tempo fomos felizes. Mais tarde, quando apertámos as mãos e eu senti de novo a tua presença, também foi bom.
Choras ainda. O amor é mais forte do que o ódio, mas teimas em esconder-te. Vem, estrela. O crepúsculo não tarda a chegar. A última onda pode surgir de um momento para o outro. E, se não te tiver, vou agarrá-la, juro que não a vou perder. Sorver a sua espuma como quem acumula energia para a última viagem. Seguir no voo livre rumo ao desconhecido onde serei átomo anónimo dos átomos que fui, perdido para sempre no espaço cósmico que resultou da grande explosão. Não fico a pairar como tu fazes, à volta de mim. Irei para muito longe. Para muito longe de ti.
Continuas irredutível, mas espero por ti neste sítio material onde me encontro porque não sei atravessar paredes.
Até sempre, estrela...

Cheguei à escola por volta das dez e quarenta e cinco. Dirigi-me logo para a sala de informática. O meu outro mundo onde “falo” com os computadores.
Os alunos começaram a chegar. O ambiente modificou-se logo na sala. Respirava-se a magia dos repeat e das shapes. As tartarugas repetiam as ordens dadas pelos alunos. O logowriter ditava a lei. Não se ouvia um ruído na sala. A magia das mensagens para uma tartaruga simpática que nunca mostrava cansaço, ou aborrecimento, nem que se repetisse mil vezes a mesma ordem, transportava-nos, professores e alunos, para um outro mundo. E o mais importante de tudo é que os alunos aprendiam a gostar da Geometria. Um milagre.
O ambiente era este quando apareceu a Lina. Estranhei o seu sorriso malicioso. Trazia um enigma para eu decifrar.
«Adivinha.»
Claro que não adivinhei e fiquei estupefacto com a revelação.
«A vender roupa, calcula! A fazer-me concorrência!»
«A Esfinge?!...»
Passei por todos os estados, como se percorresse as estações do ano. Sobressalto. Indiferença. Alegria interior. Bloqueio. Desejo de ter esquecido tudo. Determinação.
Não vou descrever em pormenor a conversa que eu e a Esfinge tivemos. Acho que não vale a pena. Tudo tem um tempo e a Esfinge já não era do meu tempo.
Deu-me a entender que as coisas não iam bem financeiramente. A casa continuava por mobilar. Praticamente só dormia lá, confessou. Pareceu-me que mantinha os contactos com o amigo do atelier. O Artista que controlava o sofrimento.
Justificou o silêncio durante este tempo todo com casos de saúde relacionados com o pai. Tinha uma doença grave de deformação óssea.
Também falei de mim, mas em traços largos.
«Espero que não demore uma eternidade a voltar a ver-te...»
Sorriu. Disse que voltava à escola.
«Podes telefonar...»
«Posso?»
Claro que eu não telefonava.
Almocei com a Lina.

Eram quase cinco da tarde quando a Bina entrou na sala de professores, acompanhada do futuro marido, segundo disse.

Conheci quantos...?
Mais uma vez pude confirmar a sua alta qualidade de insinuação entre as pessoas quando me pediu emprestada a casa da praia.
«Não está disponível, Bina. Lamento...»
Seria muito parvo se lhe emprestasse a casa.
A certa altura perguntei-lhe de chofre:
«Que aconteceu com a Luísa Coimbra?»
Não caí no chão porque estava sentado. Sinteticamente falou-me da ligação entre a Luísa Coimbra e o seu irmão. Ou melhor: da quebra de ligação. Agora compreendia os receios da Luísa sempre que conversava comigo e o motivo que levara o Cabral a não fazer uma informação de pagamento à Cerelina. Ele lá sabia as razões.
Entrando no campo das conjecturas, julgo que a Luísa Coimbra beneficiou de duas maneiras. Teve um envolvimento amoroso com o irmão da Bina e certamente recebeu chorudas comissões dos trabalhos feitos pela Cerelina.
Na altura, se não tivesse ficado de pé atrás, teria redigido a informação confirmando que o trabalho tinha sido feito, a Isabel Catita dava o parecer, o Secretário de Estado assinava em cruz, autorizava e o dinheiro saía. Todo o trabalho da Cerelina era avalizado por ela. Desde princípio “cheirou-me a esturro” e não me enganei.
Que vou fazer agora?

É tarde para fazer alguma coisa. Tive o cavalo do poder e não o montei...
A Bina ainda me contou mais coisas...
A Luísa Coimbra conseguiu infiltrar-se no GP e que ela, juntamente com o homem da Cerelina, tentavam reparar avarias ocorridas no VAX que, entretanto, entrara em colapso. Foi mais ou menos na altura em que as bandas magnéticas começaram a entrar no VAX que ouvi falar pela primeira vez de vírus informáticos. Sintomático. Estou a adivinhar o que fizeram os dois apaniguados.
Felizmente que abandonei o Projecto em Março e que a minha responsabilidade foi mínima, pois não passei de um peão que alguém disse, um dia, que acumulava grandes poderes e que os ia aumentando enquanto ensaiava um jogo de aprendizagem. Esse alguém enganou-se. É melhor pensar que se enganou. É melhor... porque talvez não se tenha enganado.

Acabei de telefonar à boazona da Marta. Pareceu-me que estava bem. Falámos pouco tempo. O tempo suficiente para ela prometer que contactaria comigo mais tarde.
Não vou dizer se de facto contactou comigo. As coisas que dão prazer não têm história ou então ficam no segredo dos deuses.
O que acabei de afirmar não quer dizer que aconteceu o que podia ter sido inevitável. Ela prometeu contactar e ficamos por aí. Apaguemos as luzes do palco.
Perguntem aos deuses...

Agora tenho muito tempo livre. Desencantamento. Solidão. Problemas dos que se julgam poetas. Viandantes de estradas vazias e silenciosas. Viandantes sem rumo, ou rumando à procura de fragmentos de caminhos que eles próprios transformaram em novos caminhos que não querem pisar. É inevitável o regresso ao passado. Não o passado remoto. O passado remoto foi abolido. Um outro, mais próximo. Tão próximo que ainda sinto no ar o odor da esperança...
Poesia, para onde foste?
Nem sequer sinto vontade de te procurar. Fica comigo. Fica que eu também fico. Estamos frente a frente. Os dois. Talvez os eternos (“Chegaram ao mesmo tempo...”). Talvez. E se somos eternos, temos todo o tempo à nossa frente para acontecer poesia. Até o tempo em que vieste de azul despertar a madrugada da supernova em letargia, ou o tempo enigmático em que convivi com a Esfinge dos olhos de amêndoa, foram tempos da rosa. Agora estão mergulhados no enigma que se esconde atrás da porta dos limites e talvez bem perto de mim...

O Projecto, que nasceu por decreto, também se extinguiu por decreto e cumpriu as metas propostas para um nado-morto. As três mulheres que assistiram ao seu nascimento, também assistiram à sua agonia. A história dos tordos, previstos pela Mimi, a taróloga, nunca passou duma história. Apenas um caso ocorrido cinco anos mais tarde me deixou na dúvida. Uma pessoa, ligada indirectamente ao Projecto só por ser cônjuge de uma das suas mulheres fundadoras, adoeceu gravemente acometido por uma doença daquelas que não perdoam e morreu ao fim de poucos meses.
Quanto à Bina, nunca mais a vi. Confirmou-se, no entanto, que a ambição, que a levou a atropelar mesmo aqueles que lhe deram a mão, traiu-a e levou-a a sair pela porta do cavalo, a mesma por onde tinha entrada, sem proventos, diga-se.
Eu, conforme já disse, voltei às raízes e segui o meu caminho.

A Madalena, que desejava entrar num negócio, não fez sociedade comigo.
Já me esquecia... escrevi-lhe uma carta.

Madalena
A intuição conduziu-me ao Amor Universal quando os outros sentidos cederam à maravilhosa força que os bloqueou. Agora que julgo ter descoberto o meu verdadeiro caminho, quero agradecer-te. Afinal foste tu quem acendeu a primeira luz, mas eu ignorei e revoltei-me em cada humilhação sofrida, talvez porque o Leão não estava habituado a perder.
A força revelou-me a tua solidão.
«Temos que ajudar-nos um ao outro.» Disseste depois do almoço que nos afastou de vez.
A paixão cegou-me. Não é verdade que se consegue tudo quanto se deseja. Nem sequer ajudar...
Podia dizer-te estas palavras oralmente mas receei a tua interpretação deformada. Preferi escrever-te. Podes ignorar. Rasgar. Rir. E eu nunca o saberei. É mais fácil para ti. Mas se a tua solidão ainda não encontrou o amor universal, se estás revoltada, se invejas, se tens desejos incontrolados de destruição, pensa simplesmente que é bom ser um grão de areia.
Estamos afastados uns dos outros mas podemos unir-nos até que um dia aconteça a união total depois de cumprido o destino.
O ouro reluz mas é alucinação. Quanto mais o desejamos, ou quanto mais ele brilha perto de nós, mais longe estamos do verdadeiro ouro.

É tudo difícil. Foi difícil começar esta mensagem. A intuição abriu caminho, continua a abrir caminho e ainda não sei o que vou escrever a seguir. Se já disse tudo.
Mesmo que rasgues este papel, em qualquer momento estará na tua memória. As palavras mais importantes vieram do meu subconsciente e destinam-se ao teu subconsciente.
Se não precisas de ajuda, ou não queres ajuda, deves ajudar os outros que vivem uma solidão igual à tua...

Dois anos mais tarde, na época natalícia, enviou-me um cartão de Boas-Festas. Respondi-lhe a agradecer... e não só.
Nunca me respondeu.

Mistificação

Finalmente chamaram-me ao Projecto. Senti-me envolvido por uma aparente tranquilidade. Confirmei que tudo corria conforme as previsões da Mimi ao ouvir da boca da Bina que o Cabral não estava bem. Ia fazer uma biopsia.
«Esse está despachado.» Dissera a Mimi, estranhamente sem que lhe desse informação suficiente para concluir que ele estava muito doente.

Contactei a Marta. Após várias tentativas goradas, falei com ela. O tema principal da nossa conversa foi o Projecto e a minha saída intempestiva.
Também falámos da Madalena. Mais uma vez ela confirmou a minha versão da “menina bonita”, como ela sempre lhe chamou. É uma mulher que não quer mostrar o seu verdadeiro rosto. Aí entra de novo a tarde em que o tempo parou e onde vi um outro rosto. O rosto que quero destruir. Ou o mito.

O mundo zangou-se com a Bina. São palavras dela...
Que aconteceu? Parece que ultrapassou competências. Foi dispensada pela Luísa Coimbra (continua a cheirar-me a esturro sempre que se fala da Luísa Coimbra).
A Milu, sua melhor amiga, zangou-se com ela. Agora está sem trabalho no Projecto e talvez ainda a sonhar que vai substituir-me. A Eduarda apoia-me. Aparentemente. Para se concretizar o meu regresso, mantive a condição do pagamento das cem horas ignoradas pela Isabel Catita, mas notei pouco entusiasmo na Sofia. Outra coisa não seria de esperar, agora que a conheço bem. Trata as pessoas como um preservativo. Depois de usar, deita fora. Quanto à Edite, não voltei a vê-la.
Voltando à Bina...
Na segunda-feira falei a sós com ela e tive oportunidade de a ver segundo outro prisma. Pressenti qualquer coisa perigosa no ar. Não consegui, contudo, descortinar. Apenas saquei uma animosidade disfarçada quando se falou da Luísa Coimbra e da Milu. Fechou-se bem. Mas em termos de como concebo os tordos em queda, a Bina caiu em desgraça.
Momento para descontrair.
E eu?, vou voltar?
Apenas sei que estou mais calmo. Mais consciente do valor que tenho na realidade.
Cumpriram-se três anos de uma grande travessia ao longo do deserto vermelho. Quem viveu durante estes três anos? Alguém que tinha vontade de viver depressa. Ou aconteceram muitos fenómenos, ou “fabriquei-os”, ou “fabricaram-nos”. Entretanto, voltaram os dias normais. Os longos dias de um Mário alucinado que admirava o povo grego e que, de certo modo, se identificou como deus do Sol e ergueu-se no ar, simbolicamente, num voo rumo a destinos onde moravam novos e inevitáveis desencantamentos, não podem ser mais normais que os dias projectados no futuro. Agora que os dias são azuis e tenho saudades do amanhã que foi ontem, vejo-o ainda sentado à mesa, no snack, rodopiando, continuamente, o copo vazio e seguindo o voo picado de uma gaivota. Voltou o tempo real
«E qual é o teu real?, e qual é o teu fictício?»
Ficaram para trás as histórias inventadas. O menino que me viu apanhar o berlinde branco não existiu. A explosão e as mortes na avenida de Roma nada tinham a ver comigo, embora falasse durante um escasso minuto com a “América em Portugal” e visse, com um certo pavor, o seu rosto cor de cera que procurava “qualquer coisa” dum e doutro lado do passeio. O desastre da Marta aconteceu, mas podia ter sido como imaginei uns tempos mais tarde. Ninguém viu a mulher de vermelho senão eu. O mistério dos oitos ainda não foi desvendado. Nenhuma cassete, com gravações ligadas ao paranormal, voltou a aparecer suspensa. Nenhuma voz soou a dizer para “não dar corda ao relógio”. Mas a Manuela existiu, assim como a vi, um dia, nos olhos de outra mulher. Tudo isto aconteceu para mim. Juro que nada inventei. Assumo e não desisto...

Começaram a cair...
Primeiro, o Cabral. Parece que a sua contribuição para o Projecto tem sido quase nula. Ultimamente nem sequer tem aparecido no GP. Estará mesmo arrumado?
Depois foi a Bina. Caiu em desgraça. Curiosamente estava a preparar-se para me substituir. Fui chamado para lhe dar informações sobre o meu trabalho. Quando cheguei ao Projecto já não era essa a intenção. Todo o mundo estava zangado com ela. Aparentemente era o salvador que ia correr com ela. Opinião da Sofia. Uma traição que nunca lhe vou perdoar. Fui chamado e disseram-me que estavam a negociar o meu regresso. O objectivo final era sinistro. Queriam dar o golpe final na Bina. Golpe sujo a que não dei cobertura quando descobri o que se estava a passar.
E que fez de mal para todo o mundo estar zangado com ela?
Simplesmente ultrapassou competências, o que é muito. Já não trabalha com a Luísa Coimbra. Já não é amiga da Milu. Já não me vai substituir. Agora que caiu em desgraça e andam a investigar como conseguiu obter um contrato vantajoso, também já não vai passar nem que seja um minuto na casa da praia.
Quanto ao meu regresso, continua tudo muito nebuloso.
«Andamos a tentar que voltes.»
Ainda há colegas que desejam o meu regresso.
O caos instala-se. A Eduarda e a Milu dizem que apostam em mim, mas Isabel Catita não quer aceitar a minha proposta. Continuo a fazer ponto de honra. Apenas quero que me paguem condignamente o trabalho extra. Não quero mais nada. Cento e cinquenta contos e continuar depois com a mesma importância que me pagavam.

Que queres de mim?


Vens das profundezas dar-me o poder numa bandeja manchada de sangue. E eu aceito. Sou teu escravo.
A gaivota aceitou a liberdade. Como se a liberdade fosse possível! Como se o simples desejo de ter saudade do que está para vir se pudesse reflectir no que foi. Essa, sim, era a minha liberdade. O futuro projectar-se no passado e tudo começar de novo. A repetição do big bang com o Universo de novo a expandir-se e eu, deus do Sol, reactivando a Vida no momento em que tu agonizavas, estrela. Era assim que sonhava a liberdade. Mas não. Apenas me ofereces o poder. E eu aceito. Rastejo como uma serpente. Imploro. Como teu fiel servidor enterro a adaga no corpo indefeso da vítima. Sem sentimento de culpa, vejo a minha vítima debater-se (vão cair como tordos?) na última agonia e não lhe estendo a mão. Sedento de poder, viro-me para as outras vítimas.
Qual será a próxima?
O teu desejo de vingança intimida-me. Vem-me à memória o sorriso sarcástico da outra que tomaste como dupla na tarde do “tempo em que não havia tempo”. Ingénuo. Ela não viu o Homem, mas o poeta. Bem arquitectado. Tinhas medo que te descobrisse. Eu rastejo e imploro, mas a serpente és tu. Aos poucos vou assimilando. Ganhando novos conhecimentos. Aos poucos vou-me aproximando de ti. Que vai acontecer quando “te encontrar”?
Um dia saberei como alcançar-te. É este o caminho. Aglutinei a experiência. Juntei vários elos e estou talvez mais distante da tua verdade. Sou o deus do Sol e tu não és o meu Sol. Já não me aqueces. Consigo o que quero e tu já não. Nunca me tiveste e eu vou destruir-te. O meu poder és tu. Rastejo como uma serpente, mas não sou serpente. Só desejo uma coisa: atingir-te com a adaga que, aparentemente, está dirigida para vítimas indefesas. Servindo-me delas vou sangrar o teu coração de vampiro que me tem sugado a liberdade, o desejo de atingir os limites do além-limite. Tens sido um obstáculo constante. Por isso digo que vou destruir-te. Sei onde encontrar-te.
Vacilaste.
Estou no caminho certo!

Dissecando...

Já regressei à minha antiga escola. Passei parte da manhã na sala de informática. Sou o responsável por um projecto informático inovador. Vamos a ver como as coisas correm.
Fui almoçar a casa e voltei à escola. Desta vez levei o carro. Quando cheguei à sala já lá estavam a Lina e os rapazes. Cheguei no momento oportuno. Ela sentia dificuldades em abrir o armário.
Abri-o à primeira. Ficou a olhar para mim, com ar de espanto. Tentou várias vezes abri-lo e não conseguiu. Eu abri. Sempre à primeira.
Tentou mais que uma vez e desistiu.
Dei-lhe uma boleia para os lados da avenida António Augusto Aguiar.
Aqui começa a história. Quando larguei a Lina já não estava bem. Ao sair do carro senti o rosto muito quente. Entrei em casa sem vontade para fazer coisa alguma.
«Actualização de ficheiros.» Pensei.
Tinha precisamente os mesmos sintomas daquela tarde logo a seguir ao almoço com a Madalena. Passe o dia seguinte com febre, deitado no sofá.
Tive todos os sintomas, menos a diarreia. E foi tudo tão rápido! A inacção, a febre aparente, as dores de cabeça, a sensação de mal-estar. Tudo igual. Como se eu fosse outro. Outro sintoma: todo eu era calor, menos as mãos. Estavam frígidas. Outra coisa estranha foi o facto do mercúrio de termómetro não ultrapassar os trinta e cinco e meio. Da outra vez tive mesmo febre.

Já fez um mês que almoçámos juntos. A última onda varreu a praia nesse dia. Querida Madalena (força de expressão), ficaste tão longe e estiveste à distância de estender o braço!
Hoje disquei o teu número de telefone ouvi uma voz rouca:
«Sim?»
Estavas triste, ensonada. A tua voz parecia vir de muito longe.
Fiquei a pensar se estavas afónica (que aconteceu à Esfinge?, que vento a levou?). Talvez doente.
Tive vontade de te falar. Mas desliguei. Só queria ouvir a tua voz. Apenas dei o sinal. Aos poucos também vou desligando.
Se não eras tu, acredita que estou aqui, do outro lado da porta.
Meu Deus! Será ela outra vez? Mas Deus não existe. Já me esquecia que não fala comigo e que sou um insignificante grão de areia.
Que mais posso fazer?
Devo destruir a Manuela. Mas como?, se é uma chama que eu próprio alimento?

O fim-de-semana temperou aparentemente o meu desejo apocalíptico de sair do Projecto. Senti-me voltar aos velhos tempos. Desprendi-me, voltei a ser criativo. Atingi quase todos os objectivos a nível da programação. Os previstos e também os imprevistos. Inclusivamente consegui acabar na folha de cálculo um trabalho que tinha prometido à Milu.
Entrei cedo no gabinete. Pouco passava das oito e meia. Aproveitei para pôr mais uns processos em dia. Agora só despacho trabalho. Longe vai o tempo de escravatura. Ironicamente, quando só penso em abandonar o Projecto, parece que estão é criadas as condições para ter mais um pouco de poder ao meu dispor. É irónico. Dá para pensar.
A Sofia já deve saber que estou de saída. Desta vez adoptou uma estratégia diferente. Não acredito que a Eduarda não tenha resistido à tentação de lhe contar a minha decisão. Contando à Eduarda, todos acabarão por saber. Nesta altura está na Dinamarca. Há pouco, a Carmo perguntou-me:
«Sempre vai embora, doutor?»
«Dia dezasseis...»
Resolvi trabalhar só de manhã. Mas esperava-me uma surpresa quando cheguei a casa. Trazia comigo a chave da gaveta onde guardo os cheques. Teria que passar pelo gabinete da parte da tarde. Depois ia dar uma volta pela Baixa.
Saíram frustradas as boas ideias que tinha. Tocou o telefone. Nada de especial. Decidi-me a ir embora às três e meia. A Milu perguntou-me por que não esperava pelos meus auxiliares da contabilidade. Não achei razoável. Tinha que esperar mais de uma hora.
Foi nessa altura que comecei a sentir a modificação do ambiente que me rodeava.
«O ambiente está pesado. Há uma corrente muito forte nesta casa...»
A minha companheira de trabalho pareceu não ter ouvido. Mas eu sentia a mudança. Cinco minutos depois tinha uma explicação plausível. Apareceu a coordenadora distrital de Setúbal. Trazia uma carga negativa muito forte. A corrente que referi terá sido captada à distância? Vinha muito deprimida. Pensei de imediato num acidente ocorrido no Outão. E acabei por fazer uma grande confusão. Vinha desfeita pela morte de uma pessoa e eu não a deixei acabar. Relacionei logo de imediato com o Outão, mas não era nada disso. Tinha morrido o marido duma animadora pedagógica. Sentia-se bastante abalada. Não só pela morte da pessoa como pelo facto do marido estar a emagrecer a olhos vistos. Senti que ela estava numa fossa. Senti também que “carregava as baterias” e eu era a fonte. A pressão subia. Mas, ao mesmo tempo, o poder crescia. Aos poucos ia-me apoderando de segredos profissionais. Finalmente aprendia a ouvir. Parece que tínhamos uma coisa em comum. Ambos deixaríamos o maldito Projecto dentro em breve.
Então... e os tordos?
Ouvi mais do que falei. Os dividendos foram razoáveis. As suas confissões permitiram concluir que o Projecto está neste momento a saque. Por um lado a Isabel Catita poupa no que paga a quem trabalha. Por outro lado abre a bolsa nas “Acções de Formação dos Animadores Pedagógicos”. Depois do caso duma acção desenvolvida por monitores de Informática, com custo abusivos, seguiu-se a diária num hotel perto de Torres Vedras, quase o dobro do normal do ano passado. Foi tão bom em termos de qualidade estar naquele hotel que, por exemplo, os animadores de Alenquer, nos dias que durou a “acção”, ficaram internos e não andaram para trás e para a frente.
«Quem organizou?»
«A Hortense.» Disse ela, baixando a voz e olhando em volta.
Entretanto chegaram os homens da contabilidade. Perguntei pelo Cabral. Não sabiam dele.
Cheguei a casa às sete. Não estava mal para quem só lá ia pôr as chaves. Ainda por cima sentia as “baterias descarregadas”. Pudera...
Não era a primeira vez. Até já aconteceu uma vez pelo telefone, quando, numa chamada, senti que me “roubavam”. A minha influência positiva transferia-se para a pessoa do outro lado da linha. Aos poucos ia dando algo de mim e, apesar de tudo, sentia-me bem.
Hoje voltou a acontecer. Mas aprendi a recuperar rápido. Uma refeição abundante e a sensação de ter transmitido boas “vibrações”, deixaram-me recuperado e pronto para a luta que vai haver amanhã. Aconteça o que acontecer quem me vai virar amanhã? Quando a Isabel Catita ler a carta, como vai reagir?
Há duas hipóteses: ou encolhe os ombros, ou sou chamado à sua presença para discutirmos sobre as causas do meu abandono.

Vou contar uma história verídica de Jesus relatada pela Etelvina, a coordenadora de Setúbal.
Um amigo seu, que não era católico, foi assediado durante muito tempo por um grupo de amigos, todos católicos. Tanto o tentaram conquistar que acabou por dizer:
«Só adiro se um dia o vosso Jesus vier tomar o pequeno-almoço comigo. Aqui, nesta esplanada...»
Ficaram zangados com ele.
Uma certa manhã, quando chegou à esplanada e começou a tomar o pequeno-almoço, uma criança aproximou-se. Tinha um ar andrajoso, mas não lhe pediu esmola...
«Deixa-me tomar o pequeno-almoço contigo...»


(
http://podiateracontecidoontem.blogspot.com - Mistério na esplanada)

E eu?, vou pedir o pequeno almoço ao diabo?
Perdi a Madalena e vou perder o Projecto. Dois amores quase de seguida...
Quem me dera não ser Leão!
Durante muito tempo fui um Leão adormecido. Nos tempos da Faculdade, a professora de Desenho Biológico caracterizou, com muita simpatia, um leão que tentei desenhar:
«Um leão velho e cansado...»
No seu sorriso compreensivo da altura vejo agora a outra maneira de interpretar as suas palavras: um leão em letargia...»
Agora, o Leão acordou. Temperado pela influência do Escorpião. Tendo o Sol e Plutão como aliados. A luz e a obscuridade. O bem e o mal. O poder e o poder.
Oxalá a Mimi, a taróloga não tenha razão!

Tive a confirmação que a Isabel Catita mentiu. Falei com a Edite que voltou a confirmar ter falado com ela. Ponto final. Fechou-se a porta. As minhas colegas insistem para que fique, mas a minha missão acabou. Já retirei do disco rígido todo o trabalho que não me foi pago.
O Projecto será cada vez mais um barco à deriva. Sem comandante e sem timoneiro na parte económica. Entregue à voragem dos tubarões que a partir de amanhã, quebradas as últimas barreiras, vão ficar livres para devorar...
Parece que foi tudo programado. A conjuntura. A ida da Edite a S. Tomé. «Se estivesse cá nada disto tinha acontecido...» Foi este o seu desabafo. Contudo, por que não assumiu perante a Isabel Catita?
A mais inconformada parece ser a Eduarda. Digo parece ser porque já não tenho confiança em ninguém do Projecto. Alterou-se tudo quando deixei o destacamento. A inveja veio logo à tona de água quando elas souberam que ia ganha mais. Diziam que estavam nas mesmas circunstâncias e queriam também um subsídio, com trabalho suplementar ou não. Curioso. Muito curioso. Até porque o meu destacamento cessara e tinha regressado à escola...

O último dia. Escrevi pouco sobre o meu trabalho e dedicação ao Projecto. Entretanto o tempo vai passar e eu próprio, mais tarde, esquecerei a dimensão atingida pelo meu desempenho. Agora é tarde para passar para o papel o que foi a minha passagem rápida, mas marcante por uma actividade com saldo positivo e para a qual não estava preparado. Como de costume, dei muito de mim. Fui exageradamente generoso e tive a paga que não merecia. Um sinal positivo foi a Isabel Catita esperar ainda pelo último dia para tentar convencer-me a ficar. Fui soberbo. Recusei-me a falar. Aleguei que tinha de estar na escola e estava atrasado.
«Vá ter com ela, doutor...» Disse ainda a minha auxiliar.
Mas não fui. A última decisão estava tomada. Fui irredutível. Os leões eram assim!
Saí algo abalado, mas por cima.

Parece que a Isabel Catita acusou o toque.
Conversei hoje demoradamente com a Eduarda. Coloquei mais uma vez na mesa as minhas razões, demonstrando que não havia outra saída. A Eduarda justificou que a amiga tinha mesmo metido “o pé na argola”.
«A Isabel esqueceu-se. Não ouve as pessoas...»
«Isso é uma verdade. Não ouve as pessoas.»
Voltou a errar quando deixou uma “migalha” como despedida ou agradecimento. Outro cheque de quarenta e cinco contos.
Claro que não aceitei.
«Fiz um trabalho de mais de cem horas que não me foi pago. O cheque de quarenta e cinco contos não paga esse trabalho. Mesmo que fosse mais também não aceitaria. Tudo tem o seu tempo...»
A Eduarda fez ainda uma última tentativa. Para sentirem mais a minha falta (hoje já tinham sentido) eu ficaria uns dias sem aparecer. Depois voltava, ficando só a trabalhar no computador.
Quanto ao Cabral parece estar de pedra e cal. Jogou à distância. Um jogo sujo. Fui desbravando o caminho para ele assentar arraiais. Nestes últimos meses que fez ele? O pagamento aos psicólogos. A proposta (negócio chorudo!) de compra de um minicomputador para a base de dados, significando cerca de vinte mil contos desviados dos cofres do Projecto.
No fim de contas, eu é que fui despachado! “Despachei-me” e abri o caminho para o regresso do Cabral. Bem tinha razão a Carmo, a minha assistente:
«O doutor devia ter saído logo em Dezembro...»
A Carmo venerava-me depois de um episódio acontecido. Inadvertidamente, cravou um agrafo não muito pequeno na palma da mão e nenhuma das minhas colegas teve coragem para tomar uma decisão. No momento chegava da rua. Cumprimentei toda a gente visível e entrei no gabinete. Logo a Carmo me mostrou a palma da mão, visivelmente perturbada.
Nessa altura ainda não lia mãos, acrescento aqui.
«Como fez isso?»
«Não sei, doutor.»
«Arranje-me uma pinça e álcool.»
«É para já.»
Saiu do gabinete e voltou pouco depois com os objectos que tinha pedido. «Veja lá, doutor... vai doer?»
«Há outras coisas que doem um pouco, mas causam prazer.» Pensei, sorrindo.
«Está a sorrir...»
«Pois estou, Carmo. Não tenha receio que não é o que pensa.»
«E que penso?»
«Esqueça.»
«Estou nas suas mãos.»
Antero entregou-se nas mãos de Deus e aconteceu o que aconteceu.
Desinfectei a pinça com o álcool, peguei na palma da palma da assustada Carmo e saquei o agrafo com a pinça com um golpe seco.
«Ah!»
«Doeu?»
«Estou-lhe eternamente grata. Ninguém quis saber do meu caso. O senhor é um santo. O meu Santo António!»
«Não exagere, Carmo... Mudando de assunto. Que se passa de novo com o Cabral?»
«A doutora Isabel vai pedir a transferência do Cabral para o Projecto
«É uma ingénua. Esse está despachado...»
«Como?»
«Nada, nada.»
Eu é que fui ingénuo!

Morreu o meu amigo das “lerpas”. Após grande sofrimento faleceu no sábado. E eu não tive conhecimento senão ontem à noite. Não estive presente no funeral do Brito. Não houve alguém que agarrasse num telefone. Tomei nota.
Será que tenho amigos verdadeiros?
Poucos.
A última vez que vi o Brito foi nos fins de Setembro. Mal sabia que também era o nosso último jogo de “lerpa”. Por sinal, perdi. Não me lembro se ele ganhou. Lembro-me, sim, dum facto que achei estranho na altura. O Brito desistiu da sociedade do totoloto. Um homem como ele ia sempre até ao fim. E foi. Passe a metáfora.
Já este ano tive conhecimento que ele trespassou a “casa das bifanas”.
Há um mês disseram-me que estava gravemente doente. A situação era dramática.
Deixou este mundo após dias de grande sofrimento. Devia ter adivinhado que, naquela noite do último jogo de “lerpa”, o Brito preparava-se para a sua última jogada. Uma jogada forte. Tudo ou nada. Nada... Hoje é nada. Ou talvez esteja entre nós. De certeza. De certeza que estava comigo, ao computador, no dia dezasseis, véspera da morte. Escrevi um poema a que dei o nome “Promessa”. Antes pensara em “Libertação”. Na manhã do dia seguinte, por volta das sete horas modifiquei o poema, tendo, no entanto, o cuidado de guardar o original. Alterei o título para “Renascer”. Tal como a planta ressuscitada, o meu amigo Brito morria num sábado de Março para renascer algures, se algures é finalidade.

E como vamos de Projecto?
No fim da tarde apareci por lá. Tive o cuidado de dizer que era uma miragem que estavam a ver. Voltei a não aceitar o dinheiro e desta vez disse acentuadamente que, se houvesse alguém a pagar o trabalho que fiz de graça, esse alguém seria o oportunista do Cabral.
Esse homem não vai resolver o problema do Projecto. Está arrumado. Comigo não brincam. Não sou peão para se jogar em jogo sujo, Cabral. Esse jogo foi porco. Antes da operação ainda podia haver justificação. Mas depois?
Não tem desculpa. Não posso perdoar-lhe. Tudo volta ao início. Creio que está arrumado. Não fui eu que disse estas palavras, mas aprovo-as.

Estive no Tim-Tim com a Sofia. Falámos de tudo. Consegui acrescentar mais alguns dados sobre a conversa que teve com a Isabel Catita no dia em que me recusei a falar com a minha ex-chefe. Pela reacção que teve (falou até em demissão) concluo que a minha atitude inesperada não foi pacífica. Obrigou-a a ceder pelo lado mais fácil, abrindo mais uma brecha no barco à deriva. Propôs então a requisição do Cabral. Aí está como as coisas aconteceram. Talvez tenha dado um tiro no pé.
Soube pela Sofia que a Bina está em crise. Não é a mesma de há uns dias para cá. Anda triste. Confidenciou-me que ela está a escrever as memórias do tempo que passou com um cantor revolucionário célebre na fase já crepuscular deste.
Já sabia, mas nada disse. A própria Bina já me tinha dito.
Quem é a Bina, além de ser alguém que mordeu a mão ao dono?
Conheci-a já no tempo da Madalena. Era uma das codificadoras que cometeram erros após erros nas mudanças de números de códigos quando do processo de conversão das componentes do Projecto. Curiosamente é irmã do responsável pela célebre Cerelina.
Mais tarde passou a trabalhar para nós com recibo verde e tornámo-nos quase amigos íntimos. Fui uma espécie de seu protector e cheguei até a emprestar-lhe a casa da praia para ela passar aí uns dias com o filho.
Era tão evidente o aparente relacionamento que tínhamos que uma vez a Milu insinuou que ela me prestava “serviços extras”.
Indiferente, limitei-a sorrir.
Não resisto à tentação de voltar a falar na insistência que fiz, em tempos, junto da Isabel Catita para que ela recebesse o subsídio de refeição a que tinha direito. Lembro-me perfeitamente desse fim de manhã. Pressionei de tal maneira que tivemos uma reunião com a Isabel Catita logo a seguir ao almoço. Foi peremptória. Bateu o pé e disse “não e não”. Que fiz? Bati o pé com mais força e ataquei doutra forma.
Ela tinha prometido dar-nos um subsídio. A mim, à Milu, à Edite e à Eduarda. Precisamente cento e cinquenta contos a cada um. Mas andava a fugir há meses ao prometido e o prometido era devido. Só precisava de tempo e um motivo forte. Aí estava ele, o motivo: a injustiça tirânica da directora. Parecia que o dinheiro do Projecto era seu, pensei ao vê-la defender-se com unhas e dentes. Disse mesmo que não era bem assim o que eu estava a contar, que nada tinha prometido, etc e tal. O que me foi dizer!
«Ah!, Mário! Sai de ti...» Ordenei a mim próprio.
Fui logo, direito que nem um fuso, pelo caminho do subsídio. Quando me zangava, cuidado com a navegação ao largo. É que sabia ser incisivo.
Não me conhecia. Só eu falava. As minhas colegas estavam caladas que nem ratas. A minha calma era impressionante. O tempo passava e o torniquete apertava. Mais parecia eu o director e a Isabel Catita a minha subordinada. Creio que fui longe de mais quando lhe fiz perguntas perigosas, tipo inquisição. E ela foi respondendo ante a admiração das minhas colegas. Sim. Sempre prometera. Mas só à Edite. Era o que queria ouvir.
«A Edite estava precisamente nas mesmas condições que nós, doutora...» Calou-se. Não podia sair do cerco que lhe tinha montado. E pronto. Foi assim. Não consegui o subsídio para a Bina, mas no dia seguinte vi irromper no gabinete, como um furacão, a minha directora.
«Mário. Dê-me o livro de cheques...»
Não queria acreditar. Começou a passar os nossos cheques. Um por um. Afinal, foi canja. Quanto à Bina acabou por ter direito a subsídio de refeição, mas só mais tarde. Bem mais tarde.
Voltando...
«Compreendo-a. São saudades...»
Ela arregalou os olhos. Nem queria acreditar.
«Foram só amigos. Fez há pouco três anos que ele morreu...»
Depois veio a bomba. Está a viver com um rapaz vinte anos mais novo que ela.
A vida era dela. Que lhe fizesse bom proveito.
Nesse momento lembrei-me do encontro que tivemos quando hoje entrei no gabinete. Mal nos falamos. Creio que fugiu. Que pensamentos iam naquela cabeça?
Convém dizer que a Bina, não sei de que forma, conseguiu substituir-me no lugar que deixei. Mais uma vez a mim me deve. Ensinei-lhe quase tudo nos últimos dias que passei no meu posto de trabalho.
«Agora que está como efectiva tem de se agarrar ao lugar.» Disse eu.
«Anda estranha. Diz que não lhe dão trabalho.»
«É verdade?»
«Sabes... meteu o pé na argola. A Isabel não gostou. Por que não voltas?»
«Está lá o cheque de cento e cinquenta contos?»
Pôs-me a mão num ombro.
«Se eu pudesse, Mário...»
«Já sei.»
Confessou-me que se sentiu mal na sexta à tarde. Segundo ela, esteve quase à morte. Com o devido desconto, a história dos tordos terá consistência?
Não acredito.

Mais dados...

Finalmente tive o encontro com a Isabel Catita. Fiquei esclarecido. O cinismo e a falta de vontade de procurar o caminho da verdade não podiam ter sido mais nítidos. Para meu espanto dei com a responsável pelo Projecto a mostrar grande admiração por eu estar a fazer trabalho duplo desde Janeiro. Ingenuidade mal intencionada a roçar o terreno da mentira.
Contrariado, esclareci os motivos que já tinha esclarecido. Como o Cabral adoeceu, consultei as colegas suas assessoras e acordámos que fazia também o trabalho dele.
Não lhe disse que, sem a minha colaboração, o Projecto teria perdido muito dinheiro. Ela já sabia disso. Certamente que as minhas colegas, a Sofia e Edite, lhe tinham contado, por exemplo, a vigarice à volta das guias de marcha. Os animadores pedagógicos só podiam deslocar-se em grupos de dois ou mais. Acontecia que, em muitos casos, iam todos no mesmo carro e apresentavam depois guias individuais. Ao tomar conhecimento de tais irregularidades, devolvi logo as guias aos coordenadores distritais de Setúbal e Santarém, responsáveis indirectos pelas ditas cujas. Tudo entrou nos eixos e o Projecto poupou uns milhares. As verbas autorizadas para os distritos ficaram retidas até aos limites e as ordens tinham partido dela. Os lucros da Cerelina que podiam ter sido evitados. Etc, etc...
A directora soube? Quanto ao caso do meu trabalho duplo, a Sofia e a Edite sabiam. Pelo menos a certeza que a última aprovou e prometeu falar com a Isabel. Disse mesmo para continuar a minha tarefa, pois seria devidamente remunerado.
Quando me mandaram falar com a Isabel Catita, apenas quis ouvir o essencial da sua boca para, no dia seguinte tomar a decisão que se impunha. Ouvi claramente que continuaria a ter o mesmo vencimento, que as condições eram as mesmas que tinham sido combinadas em Dezembro, quando me telefonou para a escola, que as mais de cem horas, que perdi a estruturar uma base de dados amaldiçoada e a carregar dados, não seriam remuneradas. Devia ter feito só o meu trabalho. Sinceramente não sabia de nada.
No fundo, era o que queria ouvir. Mesmo no fundo desejava o confronto com as previsões aterradoras da Mimi. Saber até que ponto era verdade o que ela me disse. Custasse o que custasse.
«Não quer que aconteça, pois não?»
Iam cair como tordos?
Isso era uma forma de me agarrar a uma decisão já tomada e sem hipóteses de a mudar com receio das consequências que podiam advir. Estaria sempre certo. Eu não saía do Projecto porque as pessoas começavam a cair como “tordos”.
Ingenuidade a minha.
Desejava acima de tudo a VERDADE. Nem que fosse a última verdade, não queria acreditar em poder nem em consequências funestas que pudessem dar-se à minha volta. Era livre de escolher o meu destino. Não admitia “golpes do baú”. Alguém mentiu. Ou foi a Edite ou a Isabel Catita. Ouvi claramente da boca da Edite que a minha situação ia ser revista, que estava a ganhar pouco para o que produzia, que falaria com a Isabel Catita. Tinha uma testemunha. A Eduarda também estava presente e desabafou:
«Mas é assim?!...»
Era amiga íntima da directora...
Portanto, alguém mentiu ao dizer-me que tomava conhecimento pela primeira vez do trabalho duplo que fiz. E essa mesma pessoa também lavou as mãos ao ignorar, deliberadamente, o meu esforço.
Mais tarde tive a confirmação que a Edite falou com a directora do Projecto e contou-lhe tudo o que se estava a passar. Conhecendo-a como a conhecia, acredito que teve receio de enfrentar a sua superior hierárquica.
Que outra alternativa me restava senão sair pela porta da frente?
Então escrevi uma carta que deixei sobre a secretária da Isabel Catita. A partir do dia 16 estarei desligado do Programa. E não vai acontecer nada de mau porque não acredito em patranhas, inclusivamente ao Cabral, embora este tenha confessado que não há nada de mau que não lhe tenha acontecido. Contra as previsões da Mimi, acontece que ele “não está despachado”. Eu é que estou. Eu é que estou fora do Projecto. Mas por minha vontade. E contrariei as previsões parvas da Mimi, a taróloga.
Vou sair de cabeça erguida. As boas acções ficam para quem as pratica. E não vai acontecer nada. Volto a dizer...

sábado, 25 de abril de 2009

O viandante


“O viandante errou toda a manhã pelos lugares do passado recente. Procurava sinais. Rostos conhecidos. Talvez vingança. Mas naquela manhã de Setembro, ao contrário do que previra, nada iria acontecer. Continuava confuso, o principal motivo por que não conseguia tomar uma decisão era muito simples. Nunca se sentira vocacionado para investidas belicistas.”

A cartomante fora clara na previsão em relação às duas mulheres que tinha conhecido no Projecto.
Relativamente à Madalena, chegou à conclusão que ele estava num beco sem saída. Não conseguia ir mais além porque ela tinha medo. Medo acrescido depois dos fenómenos ocorridos no restaurante. Depois, havia também a pesar experiências negativas anteriores.
Uma relação que a destroçou?
Tirou duas cartas. Só influências astrais. O destino. Embora se pudesse modificar o destino, a influência nefasta da Lua bloqueava-a. Ela era uma pessoa muito especial, muito complicada. Tinha medo de se envolver. Apenas medo. Daí a razão dos avanços e recuos sucessivos.
Quanto à Marta, a secretária exclusiva do Programa, essa mulher queria mesmo ter uma ligação amorosa com ele. Motivo? Saturação do casamento. Desejo de novas experiências. Mas devia ter cuidado.
Mário pareceu dar importância ao aviso da cartomante. De facto a Marta era uma mulher vistosa, muito capaz de pôr à roda a cabeça de um homem. Confessou-lhe um dia que o seu gingar nos corredores desorientava os homens, principalmente um cinquentão, forte, careca, que não sabia onde colocar-se quando se cruzava com ela. Devia estar mais atento para não cair em qualquer ratoeira.
Pediu-lhe para tirar novas cartas. Confirmou o perigo, embora a situação estivesse controlada.
Explicou à cartomante que queria servir-se dela apenas como veículo para atingir a Madalena. Pensava que elas estavam amuadas por sua causa e talvez a Madalena fizesse negaças à amiga. Afinal, fora a Madalena quem interrompera um idílio carnal. Opinião da cartomante: não, a Marta não ia revelar o desejo de ir para a cama com ele.
«É pena...» Pensou.
Voltou a falar num jogo de forças antagónicas que não o deixavam ir mais além nas relações sentimentais.

“Não podia ser mais enganado. Nem devia abandonar o posto. Alerta, alerta.
Zangou-se e logo tudo pareceu estremecer em volta. A força estava de volta. Nem mais um segundo. Nem mais uma mentira. E a profecia que fosse para o diabo.
Agora voltava ao “local do crime”, procurando destroços que não existiam. Um prédio que foi construído de raiz com seis andares e que, passado um ano após a construção, levou com mais quatro em cima, era uma “vítima ideal” para ele fazer o seu exercício de concentração. À partida, o prédio estava enfraquecido.
Na esquina habitual encontrou a velha pedinte, que lhe estendeu a mão mal o viu. Maquinalmente deu-lhe as duas moedas brancas do costume. Não deixou de reparar que os olhos pareciam mais claros que o costume. Seria cega? Nunca pensara nisso. De facto noutros tempos não havia tempo. Sorriu. Conseguia recordar, o que era um absurdo. Tinha feito esforços enormes para pôr uma pedra sobre a estranha relação que tivera com a Madalena. Mas não era por ela que fazia o seu exercício de concentração. O caso era mais grave.
Manteve-se firme no seu posto, a uma distância razoável. Dali ainda podia dominar as entradas e saídas das pessoas no edifício. Dez minutos volvidos, afastou-se. Estava na hora de repetir o exercício fracassado. O edifício que os anjos tinham deixado de segurar não resistiria por muito mais tempo, acreditou.
«Cai, maldito! Já nada te pode proteger...»
Aguardou, impávido e sereno. Se insistisse, de certeza que seria premiado pelo seu esforço mental.
«Cai...»
Só queria que não estivesse ninguém a passar perto no momento da queda.
O edifício não se submeteu ao seu poder mental.
A cartomante fora clara. Ele tinha poderes crescentes e deixara de ser um iniciado. As experiências eram desafios crescentes. Se tentassem molestá-lo, teriam a resposta na volta.
«Cai, cai!»
Ficou na dúvida. Voltava mais tarde.
Atravessou a avenida e dirigiu-se, apressado, para a paragem do autocarro, sem tomar as habituais precauções. Correu tudo bem. Mesmo a tempo. Estava um a chegar.
Sentou-se de costas para o condutor. Não conseguia controlar os pensamentos que jorravam em torrente na sua mente. Por várias razões, odiava quase todos os que trabalhavam no último piso daquele edifício. Impunha-se tomar uma acção radical, mais forte. A solução era destruir o edifício que já não estava apoiado por anjos.
«Os anjos cansaram-se...» Reforçou.
O autocarro pôs-se em movimento e deixou de ver o prédio.
Sobressaltou-se. O companheiro do lado levantou-se bruscamente. Sentia-se tonto por ir de costas.
«Talvez seja uma questão nervosa.» Comentou.
«Posso fazer longas viagens» disse o companheiro do lado. «No entanto, quando vou de costas, fico tonto.»
Tinha a certeza. O homem do lado fora envolvido pela teia dos seus pensamentos negros. Sentia-se mais aliviado, pois o outro saiu na paragem seguinte.
«Talvez não voltasse a acontecer em Agadir...»
Que queria dizer viandante com aquela frase, aparentemente sem nexo, que lhe tinha ocorrido dias antes?
Agadir. A-G-A-D-I-R.
«RIAD!»
Descobrira. Mas restavam duas letras. G e A. Talvez...
«G-uerr-A...»
Também estava em guerra no Projecto. Com um pé fora e outro dentro. Fazia o seu trabalho e o de um colega e uma assessora da Isabel Catita tinha prometido que seria compensado. Que ficasse descansado.
«Faz as contas das horas que perdes...»
E fez, muito por baixo. Cento e cinquenta contos.
A colega cumpriu a promessa?
Pois. Nem um terço da verba pedida, e que achava justa, a directora queria pagar. Que ficasse com o cheque de quarenta e cinco contos. Sentia-se traído.”

A cartomante fez o sinal da cruz, voltada para a imagem em cerâmica do ser barbudo e começou a baralhar as cartas. Ele olhou em volta. Havia uma longa série de pratos nas paredes e bem no alto. Tentou concentrar-se.
As cartas disseram que não sairia do Programa. Porquê? Aqui começou a ficar preocupado. Falou em poder crescente que ele estava a criar (a receber). Donde vinha? Não sabia. Estava no destino. Domínio cada vez mais poderoso e capacidades paranormais cada vez mais desenvolvidas e irreversíveis. As suas pequenas felicidades, os tempos livres, apenas seriam recordados com alguma saudade. E era mau, mesmo muito mau, para os que o rodeavam cada vez que pensava em sair.
«Começarão a cair como tordos e o senhor professor não quer que isso aconteça. É uma pessoa de bem. Mas é inevitável acontecer se quiser sair...»
Caíam como tordos?
Perguntou se devia voltar ao Programa.
A cartomante lançou outra vez as cartas do Tarot e disse que a situação ia ser revista e a remuneração mais justa. Mas continuaria também na escola. No Programa, veria os seus poderes e influência em crescimento constante.
Referiu-se ao colega que tinha substituído, por causa da operação melindrosa que este fez, dos motivos morais que não o deixavam sair. Falou também dos fenómenos paranormais que se desenrolavam à sua volta sem que os pudesse controlar ou entender a sua origem. Apenas tinha desconfianças.
«Esse está liquidado...» Foi o comentário imediato da cartomante.
Sobre os fenómenos paranormais, confirmou que as suas capacidades seriam aumentadas.
Um mês depois, como continuava o braço de ferro entre ele e a responsável pelo Programa, deixou sobre a sua secretária uma carta de despedida, contrariando as previsões da cartomante.
O colega que adoeceu, recuperou e voltou ao trabalho, mas de facto alguém caiu como um tordo. Precisamente o marido de uma colega muito ligada à Isabel Catita morreu cinco anos mais tarde vítima de uma doença que poucas vezes perdoou.
Quanto ao prédio com quatro andares a mais, continuou de pé. Afinal os anjos não desistiram de o segurar...

“Estava de passagem. Queria saber onde era o nº66. Algo não batia certo. Havia um incêndio num prédio de sete andares, começado nas caves. Tudo errado. Quem andava a interferir? Pediu aos anjos terminassem a ajuda e o que aconteceu?
Sentia-se gozado com o incêndio num prédio da avenida, na zona oposta. Ah!, viandante, viandante!, foste gozado em grande!”

“O viandante chegou à zona do costume e pensou também o costume. O edifício continuava de pé.
Os anjos tinham-se arrependido?
Encolheu os ombros e encaminhou-se para um Banco da avenida onde funcionava o Projecto. Tinha um cheque para levantar.
Tudo correu bem. Seguiu-se a CGD situada avenida da República. Agora era um cheque que tinha para depositar. Além disso, precisava de saber o saldo. A fila de pessoas era enorme. Hesitou. Talvez fosse melhor tratar do assunto noutra ocasião. Por outro lado, não tinha nada de especial para fazer. Pôs-se na fila.
A progressão era lenta. Olhou em volta, tentando consumir o tempo. Um idoso dormia sentado numa cadeira.
Imaginou que o idoso adormecido acabava de ter um colapso cardíaco. E ele, viandante, como médico que não era, estava a seu lado chamando-o para o lado certo da vida. A emoção das pessoas era grande. A recuperação parecia difícil. Tinha de conseguir. Nem que o outro fosse o desconhecido homem curvado.
Uma senhora que lhe pareceu ter bom aspecto acabava de ser atendida. Teve um palpite. Pela idade e pelo ar distinto que aparentava, devia ser a acompanhante do idoso profundamente adormecido.
Acertou. A senhora pôs suavemente a mão na testa do companheiro. Ele continuou a dormir. A senhora repetiu a carícia. O idoso não deu sinal. Respirava de modo acelerado. Outra carícia. As pessoas começaram a olhar, preocupadas. O próprio viandante sentiu pressões no peito e as mãos tornaram-se húmidas. Que raio de pensamentos tivera! Parecia que chamava a morte...
Foi a vez de se sentir indisposto. Voltou-se de costas para o velho e para a senhora que continuava a acariciar-lhe a testa sem êxito. Assim estava melhor. Mas não deixou de ir espreitando.
Finalmente o idoso acordou e o viandante respirou fundo. Devia deixar de ter aquelas brincadeiras parvas. O tal jogo, como dissera a cartomante.
Estavam quatro pessoas antes dele. Em breve seria atendido. Depois, regressava a casa. Mas... seria verdade? Havia um problema nos computadores.
Sorriu, irónico. Mais uma coincidência. E quantas vezes acontecia aquela coincidência? Boa pergunta.
Claro que não conseguiu saber o saldo. Os terminais ficaram off. Não havia comunicação com a central.
Apesar do contratempo continuou bem disposto. Ou ele não tivesse sido desportista nos tempos da sua juventude...”

Há muito tempo que Mário não passava na rua de Entrecampos. Haveria alguma agência naquela rua? Foi andando em frente. A rua era comprida.
Ouviu finalmente o ruído de uma máquina de registar totolotos. Mas, coisa estranha... vinha de uma taberna! Não hesitou. Pela a primeira vez ia entregar boletins numa taberna.
Depois de ter entregue todos os boletins de uma das sociedades, dirigiu-se para o outro lado da linha de caminho de ferro. A nova estação estava bem concebida, pensou... e logo esboçou um sorriso sarcástico. A rua ainda continuava para o outro lado, o que não tinha a mínima lógica.
Andou mais alguns metros. Depois, inexplicavelmente, inflectiu para a esquerda e começou a descer uma rua em direcção a Entrecampos.
Restaurante El Sombrero. Onde ouvira esse nome? Já sabia. Era um restaurante que a Marta frequentara ainda antes de ter o acidente e do estranho encontro a três no restaurante Clemente. No outro tempo e em que ele e a Madalena foram transportados para outra galáxia. Outro tempo que não queria recordar.
«O almoço foi bom, Marta?»
Vinha eufórica, eléctrica.
«Gosto muito de comida mexicana, doutor. Mas bebi mais do que a conta.»
«De facto está alegre.»
De repente ficou triste.
«Disse alguma coisa desagradável?»
Descruzou as pernas e mostrou a cor das cuecas. Vermelhas.
Limpou uma lágrima rebelde. Da alegria passou à tristeza.
«O doutor é uma pessoa correcta...»
Já estava nas Estados Unidos.
Quanto ao resto, foi a semana dos oitos no totoloto. Teve um terceiro prémio no concurso 38. O boletim era o 28 da sociedade. Saíram os números 18 e 48. Foi o oitavo terceiro prémio que ganhou. Na agência 428. O registo era o 42581 e o boletim tinha o número 588251. A soma dos três números finais dava 8. A aposta era a 276 da sociedade (2+6=8). Os outros números foram: 3, 4, 25, 26 (3+4+25+36=68). O suplementar foi o 17 (1+7=8). E o número de registo na base de dados era o 143 (1+4+3=8).

“Sentia-se preocupado. Esfumara-se o tempo da rosa e o tempo em que não havia tempo também parecia ter chegado ao fim. A mulher de Aries prometera sempre facilidades e o resultado estava à vista. Ele parecia controlar as iniciativas, mas não devia esquecer a força escondida de Aries. Os avanços concedidos eram aparentes.
Devia pensar duas vezes antes de decidir tomar uma decisão. Tudo parecia muito fácil a princípio. Demasiado fácil. Depois, certamente viria uma escarpa inacessível. O costume.
O espírito de aventura, a curiosidade e a fome carnal eram três vectores a tomar em linha de conta. Mas havia mais uma coisa. O desejo egocêntrico do viandante que se confundia com a força centrípeta que o empurrava para Aries. Era atraído por um motivo que talvez só o passado podia explicar. O olhar meigo e triste e, ao mesmo tempo, desafiador, levava-o, fatalmente, ao passado remoto. A curiosidade de o conhecer melhor também tinha um preço (vantagem para ele) e grande. Mas, vendo bem, o risco era aparente. Tudo se passava em segurança, sob a protecção eficaz do triângulo. O viandante conhecia sobejamente a força desse triângulo. Só que fora imaterial, controlado do outro lado. Quando a magia deixou ver a verdade, não havia verdade nenhuma. Nem caminhos a seguir ou utopias de amanhã acontecer. A verdadeira utopia foi o salto para uma nova madrugada, depois do Leão voltar costas, em ar de desprezo para não admitir a derrota traumatizante.
Lera em qualquer livro sobre os poderes de Aries. Só ela podia devorar o Leão, sempre doentiamente apaixonado por algo que não podia ter, repetindo a paixão ao seguir pelo caminho mais difícil, onde eram acenados impossíveis.
«O que é meu, às minhas mãos vem parar...»
«E o que é teu?»
Foi esse o engano. O engano de olhos de outros olhos que também eram meigos e tristes. Tristes de tão tristes serem e de jamais fazerem feliz o viandante ou outro qualquer como ele que se cruzasse, tal asteróide, com a órbita do amanhã acontecer, para depois sair da sua própria órbita.
(E quem somos nós senão viandantes que descem, ciclicamente, nesta Terra agreste, à procura da sua ilha? O asteróide risca o céu e toma a cor vermelha, muito vermelha... até que desaparece.)
Mas a utopia, essa não fugia. Já riscava o céu.

“«Não fugirei!»
«Amanhã volta acontecer. O que é fácil tem um preço. Qual é o teu preço e por que tens um preço?»
«E qual é o teu fictício?»
«Sempre gostei de abstrair. Receio que o meu fictício sejas tu e o real a sede insaciável de vingança.»
«Estás a abstrair...»
«Imenso. Pensei que tinhas partido. Tinhas partido para lá da luz e já não precisavas de vingar o ultraje de te ter abandonado à sina de seres possuída pelo homem que mais odiavas.»
«Sou Aries
«Bem sei. Curiosamente a outra Aries em quem estou a pensar e não em ti, tem quase a mesma idade que terias se não tivesses partido. Preciso de a conhecer melhor...»
«Não vai ser fácil...»
«Há muito que não falava contigo! Não fujas para outras paragens.»
«Fujo, sim. Descobriste-me noutros olhos e não gostaste...»
«Para a próxima...»
«Não há outra oportunidade.»
«Profecia?»
«Verdade. Verdade trágica. E vai sempre acontecer assim. Com ela ou com outra. Até que nos voltemos a encontrar.»
«Aí?, desse lado?»
«Quem sabe...»
O viandante sentiu a ausência. O fio desligou-se e perguntava a si próprio que pensamentos eram aqueles que tinham ocupado a sua mente.
Que mais podia fazer? Talvez nada. Encolheu os ombros, resignado, e caminhou ao acaso, como viandante que era. Afinal um acaso determinista que o haveria de levar ao encontro da última utopia. Aí, a outra Aries desempenharia um papel importante de bloqueio.
«Essa agora!»
Ele a pensar nela e quem estava a ver a subir a avenida Casal Ribeiro?
«Olá, Odete!»
«Que surpresa!»
O tal meteoro que riscou o céu e veio na órbita do acontecer. De facto foi uma coincidência que dava para pensar.
«Que fazes por aqui?»
«Isso pergunto eu. Moro a cem metros, numa transversal.»
«Ah sim. Já me tinhas dito. Que cabeça a minha...»
«Pois disse. Vou voltar este ano para a escola. Acabou o destacamento.»
«E eu também.»
Infelizmente aquela órbita do acontecer ia ser muito prejudicial para ele...
«És tu que fazes os horários da noite?»
«Sou. Queres uma cunha?» Perguntou.
«Podemos ficar com as mesmas turmas.»
«Pois podemos.»
(Não faças isso! Amanhã ela vai cravar-te um punhal...)
Claro que o viandante não entendeu a metáfora e, ao não entender, ficou vulnerável à concretização da profecia.”

domingo, 28 de outubro de 2007

O último encontro

A última vez que vi a Madalena foi fruto de mais uma coincidência.
O almoço das grandes decisões fora há mais de um ano e as feridas abertas no homem estavam completamente cicatrizadas e quanto ao poeta, como poeta que se prezava, andava agora envolvido (pasmem!) numa cruzada de quadras soltas que nada tinham a ver com a paixão que se extinguiu naturalmente na ausência da coisa amada, como é vulgar acontecer. Os grandes amores... esses, ficam para sempre!

«Mário!»
Estava a ver uma montra de ferramentas. Voltei-me.
«Mas é a Madalena!»
Trocámos um beijo ao de leve, de circunstância.
«Que coincidência! Que anda a fazer nos meus domínios?» Perguntou, exibindo o seu sorriso doce, que já fora doce e que escondia um “diabinho”.
A Pontinha Fantástica (como eu lhe chamava) que tanto odiava. Uma região de subúrbio, aparentemente pacata, de gente simples e humilde, mas também de rixas.
Bem desejas que não sejam os teus domínios!
«Gosto de vir para esta terra que chama os seus domínios. É uma zona pacata.»
«Isso é o que julga.»
«De dia, é.»
«Nesse ponto tem razão. Mas que tem feito?»
«Continuo a dar aulas à noite. De dia ando por aí, ou estou de roda dos selos.»
«Uma grande paixão!»
«Para toda a vida, Madalena. As outras paixões, leva-as o vento.»
Uma indirecta que encaixou sem dar sinal.
«E se fôssemos tomar um café?»
Não queria acreditar!
«Estou nas suas mãos.»
«Então venha daí. Sei dum café recatado.»
«Pois vamos.»
A minha alma estava parva!
Já conhecia o café. Tinha dado explicações a uma aluna do curso nocturno, no tempo da Maria. Precisamente a companheira de mesa da Cátia. Quando as aulas começaram, ainda em Setembro, nas noites em que o calor apertava, costumava trazer um vestido decotado e chamava-me com frequência a pedir-me esclarecimentos. Eu não hesitava e perdia-me nas colinas que se erguiam, provocantes. Tempos difíceis.
«Hoje pago eu. Que toma?»
«Uma bica.»
«Os bolos são de confiança. Ainda me lembro que gosta de pastéis de nata. Eu por mim, prefiro um mil-folhas.»
«Também gosto do mil-folhas. Mas só compro para comer em casa. Percebe porquê?»
«Não.»
«Sou um desajeitado a comer esse tipo de bolos. Mas diga-me, Madalena, sempre foi para a frente com o negócio de trapos?»
«Desisti.»
«Ainda bem. Confesso que fui grosseiro nesse dia do almoço. Espero que ainda esteja a tempo de ser perdoado.»
«Agora, pensando a frio... acho que o Mário teve razão. Brinquei de certa maneira com os seus sentimentos. Mas foi sem querer. Gostava do poeta.»
«Ah! O poeta... Devia ser banido. Ultrapassa-me sempre, quer pela esquerda, quer pela direita.»
«Voltando ao negócio dos trapos, nessa altura andava noutra, conforme lhe disse.»
«Sim. Disse-me.»
«Larguei-o logo.»
Temos que amparar-nos um ao outro...
«Sabe, ele queria-me na cama a troco de um financiamento e o que prezava mais na vida era a minha liberdade.»
«Também me disse, Madalena. Quanto a mim, nunca gostei de liberdade a mais. Não nasci para ser um “cavalo à solta”.»
«Respeito a sua opção. E sempre encontrou a sua carcereira?»
«Não. Aqui o culpado em cem por cento é o poeta. As mulheres pensam que sou um eterno apaixonado, mas não é verdade. Sou muito exigente quando a atracção surge. Sou atraído por muitos rabos de saias, mas não vou com qualquer mulher para a cama e, muito menos, estabeleço com facilidade uma relação duradoura.»
Sabia o que a Madalena estava a pensar. Agora que o tempo tinha passado impiedosamente por nós e que cada um seguia na sua estrada, quiçá deserta, ela pensava seriamente se não tinha cometido naquele dia do almoço um erro grosseiro. Mas o que passou, passou.
É isso, Madalena. O que passou, passou...
«Disse alguma coisa, Mário?»
«Não. Estava a pensar que tempo tudo destrói. O que é bom e o que é ruim. E não há nada a fazer.»
«Ah sim.»
«Por outras palavras, podia ter acontecido naquele dia e não aconteceu. Já não haverá outro igual.»
«Pois não. Continua a escrever poemas para as suas apaixonadas?»
«Infelizmente, sim. É uma doença que não tem cura.»
«Quem sabe... um dia...»
«Não existem almas gémeas, Madalena.»
Consultou o relógio.
«Chegou a hora?»
«Ainda tenho mais uns minutos.»
«Que é feito da Marta?»
Sorriu com uma certa dose de ironia.
«O Mário andava perdido pelo beicinho quando nos encontrámos os três naquele célebre almoço. Ainda bem que foi desviado...»
«Porquê?»
«Não era mulher para si. Você merecia melhor. Não é um homem de aventuras. Quando se envolve é mesmo a sério.»
«Pressente...?»
«Hoje tenho a certeza.»
Como mudaste, Madalena!
«A propósito do dia do almoço... lembra-se do que aconteceu connosco?»
«Aconteceu alguma coisa?»
«A troca de olhares. A sensação de que nos conhecíamos há muito tempo. E a pobre da Marta que não sabia qual era o seu papel. Foi muito bom, Madalena!»
«Acha? Tenho muita pena. Não me lembro de nada.»
«Já suspeitava disso.»
Olhou de novo para o relógio.
«Agora é que chegou a hora. Temos que combinar um almoço.»
Sorri com uma certa ironia. Ou amargura. Não sabia.
«Prometo não faltar.»
«Um de nós tem que tomar a iniciativa. Como vamos escolher?»
«Não sei. Mas só como amigos.»
«E o que somos?»
«Tem razão.»
Os seus olhos brilharam.
Não! Não pode voltar a acontecer!
Foi um falso alarme.
«Mário, quer o almoço se realize ou não, queria confessar-lhe uma coisa.»
Ia declarar-se?
«Sou todo ouvidos.»
«Nunca lhe disseram que é uma pessoa muito especial?»
«E que ganhei com isso?»
«Um dia vai encontrar alguém que o faça feliz.»
«Oxalá tenha razão.»
Foi então que tive uma ideia genial.
«Vamos tirar à sorte com uma moeda. A Madalena escolhe. Se calhar caras, telefona-me a marcar o dia para o almoço. No caso contrário, sou eu quem telefona.»
Concordou.
«É uma ideia radical, mas está certo.»
Retirei uma moeda do bolso do casaco e atirei-a ao ar. Apanhei-a na queda e ficou presa entre as mãos.
«Suspense! Um... dois... três.»
Mostrei a moeda com a mão esquerda.
«Caras. Sou eu.»
Depois beijámo-nos menos superficialmente do que no momento do encontro e cada um foi à sua vida.
Nunca mais me telefonou, nem eu lhe perguntei por que motivo faltou outra vez a um compromisso assumido. Mulher Caranguejo era assim, bem como o Leão quando acreditava que não valia a pena insistir.
A própria força do destino (ou o meu anjo-da-guarda) se encarregou de fazer com que não nos voltássemos a encontrar. Mas confesso que gostei muito de conversar com a Madalena desta última vez, se é que tivemos um encontro real que “podia ter acontecido ontem”.